Viva la Vida!

     

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2004


Eles e elas



Índia: ela




Índia: ele


Quinta-feira, Fevereiro 26, 2004


Mais fotos do Nepal!



Uma gompa e muitas montanhas




Introdução ao Budismo




Tá pensando que foi fácil?




"Brazil?! Ronaldo, Cafu, Pelé..."




Vai um dentista aí? Tô fora...





Ter opção é tuuuudo na vida




Se valeu a pena? Ah, valeu.



Quarta-feira, Fevereiro 25, 2004


Tá bom, tá bom...

... não foi só a casa que ganhou mais uns penduricalhos... Eu também sou filha de Shiva, né?!


Chama a Graneiro!

Começou a Operação Mudança de País na decoração. Sai México, entram Índia e Nepal. Já era tempo



Quinta-feira, Fevereiro 12, 2004






Boas-vindas da família Zanni

A vida segue
É, pois é. Voltei há uma semana. Tempo suficiente para descansar, dar um tempo nas atualizações do blog e deixar a viagem da Índia aqui para todo mundo ver. Agora chega. Para quem ainda estiver interessado em saber como foi, é só clicar no link ali ao lado. Mas na home da minha vida, está na hora de mudar de assunto.

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004


Fotos

Ei, comecei a colocar algumas fotos junto aos posts! As primeiras estão lá para baixo. Nos próximos dias coloco mais.


Quarta-feira, Fevereiro 04, 2004


Ando meio desligada....
Pode ser a diferença de fuso, pode ser a saudade, pode ser simplesmente que esteja diferente. Ontem, primeiro dia em casa, não fiz metade do que tinha que fazer. Não tive fome na hora de comer e não tive sono na hora de dormir. Passei o dia andando de um lado para o outro, bebendo chá de Darjeeling, acendendo incensos de Varanasi, ouvindo dos CDs que comprei em Khatmandu, lendo livros sobre a Índia e organizando as fotos da viagem no computador. Era como se a minha cabeça não tivesse vindo com o corpo no avião.
Voltar é difícil.

Chai, chá com especiarias: que saudade!


Domingo, Fevereiro 01, 2004


Faltava ele
Finalmente, Gandhi. Senti falta dele em toda a viagem. Vi Buda, Shiva, Krishna, Ganesh e a coleccao de deuses hindus. Vi babas, sadus, yogues contorcionistas, homens de turbante e mulheres de sari, vacas e bichos que encheriam um zoologico sagrado. Vi a Madre Tereza nos asilos espalhados pelo pais. Mas nao tinha visto Gandhi. Nenhuma referencia nas conversas, nenhuma grande marca nas cidades alem do burocratico. Fui encontra-lo hoje em Mumbai, no museu. Nas fotos, heroi mirradinho entre chefes de estado. Falando aa multidao. Resistindo. Nao precisou mais que isso para preencher toda a lacuna aberta pela minha expectativa. Saih emocionada, como saio da India. Um grande final para uma grande viagem. Surpreendente.

Vejo voces em Sao Paulo, meninos! Embarco na madrugada de hoje e chego no dia 3 pela manha.
Valeu!

Acho que agora entendi
Entre todos os lugares que visitei, Mumbai eh onde o ocidente se impoe mais forte na India. Aqui tem calccadas, construccoes imponentes como nas capitais europeias, pouca buzina no transito, ruas com nomes (e placas para informar!), lojas super luxuosas, gente bonita e bem tratada... e uma das maiores favelas do mundo nos suburbios. Estava acabando o meu almocco em um restaurante moderninho onde o ambiente, a qualidade da comida e os preccos me lembraram os muitos bares dos Jardins quando consegui, pela primeira vez, fazer um retrado mais completo daqui. No final, eh muito parecido com o Brasil. Um pais pobre, cheio de problemas, que tem uma elite concentrada em bolhas egocentricas. Foi aih que consegui ver a India potencia nuclear, a India exportadora de talentos da informatica, a India da industria superprodutora de cinema. Nao tinha conseguido fazer isso vendo soh a esmagadora miseria.
Poxa, como eh bom viajar, neh?






Mumbai: modernidade indiana



Barba, cabelo e bigode
Livre, leve e solta em Goa, fui aa praia. Quando tirei os 3 casacos com que estava andando no norte me dei conta de que talvez, quem sabe, daquele jeito corria o risco de ser confundida com a mulher do Yeti na volta ao Brasil (Yeti = abominavel homem das neves). Resolvi dar um jeito nisso e ainda satisfazer uma curiosidade que vinha cultivando desde o comecco da viagem. Tomei coragem, entrei em uma das milhares de barbearias que me encantavam pelo tamanho (tao pequenas!) e os vidrinhos enfileirados nas prateleiras e perguntei: `voces tambem cortam cabelo de mulher?` Fosse pela cara do barbeiro, teria dado meia-volta e me mandado. Mas como aqui o sinal que se faz com a cabecca para indicar `sim` e `nao` eh o mesmo (para o lado), resolvi interpretar da minha forma. Sentei na cadeira e esperei. Devo ter sido a primeira mulher de quem aquele cara cortou o cabelo, porque se nao tivesse quase implorado para ele nao exagerar na tesoura, teria dado fim ao meu projeto de cabelos longos em 2004. Quanto aos frasquinhos da prateleira, descobri para que serviam no final do corte, logo depois do talco fartamente polvilhado na minha nuca. Sao para a `tradicional` massagem de cabecca. Primeiro, um oleo viscoso serve de lubrificante para a massagem. Depois, um tonico tira tudo. Muito educada, recusei ir ateh o fim da experiencia. Curiosidade tem limite.

A India em portugues
Goa eh mais ou menos como uma Parati. Construccoes incriveis (muito mais impressionantes que Parati, claro) na cidade central e um litoral de tirar o folego esparramado ao norte e ao sul. Fiquei hospedada na parte historica, onde igrejas brancas despontam no ceu, cruzes salpicam os telhados das casa, santos catolicos tomam o lugar dos deuses indus e as pessoas -- pelo menos as mais velhas -- falam (sim!) portugues. Nos restaurantes, frutos do mar preparados a moda lusitana. Nas ruas, nas lojas e na gente, nomes tao familiares! Aqui tem marcelos, edgares, santos, luizes, marias.... Tem frutas frescas, caldo de cana, palmeiras, primaveras, praias lindas e a calma irreverente no andar e no fazer. Mas nao dah pra esquecer que estou na India. Achei o melhor exemplo dessa mistura na comida. Os pratos sao portugueses, com certeza. Mas um gostinho picante, lah no fundo, vem lembrar os desavisados que uma cultura milenar nao se deixa varrer do mapa assim por completo.... em soh 500 anos de dominaccao.


Goa


Quinta-feira, Janeiro 29, 2004


Noite no aeroporto
Depois de viajar o dia todo, cheguei ao aeroporto de Mumbai as 23h do dia 28. Meu voo para Goa soh saia as 5h30 e nao tinha hotel na area. Fazer o que? Dormi no sofa da sala de embarque.
Jah tinha arrumado a mochila sob os pes para evitar acordar 20kg mais `leve` no dia seguinte quando passou pela minha cabecca que talvez jah estivesse ficando velha para isso. Ia comeccar a refletir sobre o assunto, mas fui interrompida por uma inglesa, cabelinho branco e botas surradas, pedindo espacco para cochilar ateh as 6h. Abri espacco, abracei a bolsa e dormi sem ligar para a luz, o faxineiro, o cheiro de inseticida (melhor que os mosquitos), nem o movimento que comeccou lah pelas 4h.
Antes de apagar, soh lembro que pensei... `Ufa! O Sheraton ainda pode esperar!`

Em Darjeeling...
... andei de maria-fumacca na ferrovia mais alta do mundo;
... vi o sol iluminar a ponta do Everest;
... andei por imensas plantaccoes de cha;
... visitei um centro de refugiados do Tibet;
... vi lindas gompas budistas emolduradas por montanhas de 7 mil metros de altitude;
... conheci uma suicca de origem arabe que deixou tudo para viver em um mosteiro, um neozelandes setentao que resolveu rodar o mundo no mais puro estilo backpacker, dois pilotos da British Airways que estarao em Sao Paulo nos proximos meses e um australiando maluco que jah estah na India ha 6 meses;
... descobri que estar longe nao eh deixar de estar perto e estar perto nao evita estar longe.

Segunda-feira, Janeiro 26, 2004


Soh pra provocar mais um pouquinho
Darjeeling eh linda!

E quando tudo parece que vai dar errado...
Nao eh que dah certo?!
Ontem, quando fui resgatada pelo casal de locais na estrada, jah estava pensando que toda a minha vinda a Darjeeling seria inutil. Teria sido, se o tal casal nao fosse proprietario de um hotel na cidade, nao tivesse me dado um desconto maravilhoso para ficar hospedada lah, nao arranjasse toda a minha programaccao do dia seguinte na base do favor e, de quebra, nao oferecesse o carro com motorista para me levar a todos os lugares em troca do pagamento do diesel. Tudo isso, exatamente quando o tempo -- que estava pessimo ateh o dia anterior -- melhorou.
E depois, tem gente que acha que sou muito Polyana!

Os maoistas estao chegando
A proposito, a greve que mencionei no registro abaixo nao foi a unica referencia que tive sobre os maoistas no Nepal. Durante todo nosso trekking, esperamos (diria que ansiosamente) pelo encontro com o exercito dos revoltosos. Menos por motivos politicos e mais por um detalhe que nos pareceu impressionante: para evitar confusoes e provar que a revoluccao nao estah interessada na exploraccao dos turistas, cada caminhante `convidado` a colaborar com a taxa fixa de 1000 rupias recebe um recibo. Assim, evita-se a cobrancca da taxa mais de uma vez.
Que organizaccao!

Domingo, Janeiro 25, 2004


Muito alem dos ponteiros
Nesta parte do mundo, o tempo nao eh algo mensuravel em horas, minutos e segundos. Entre o lento movimento dos ponteiros, ha fatores quase magicos que iludem, confundem e... atrasam todos os seus planos. Jah havia sido assim no percurso de Agra a Varanasi, quando 12h foram magicamente transmutadas em interminaveis 24h. Ontem, quando o `meio dia` previsto de viagem entre Khatmandu, no Nepal, e Darjeeling, na India, se transformou em um dia e meio, aprendi muito sobre este fenomeno. Vejam se nao eh matematico:
Contagem natural do tempo:
45 minutos de voo entre Khatmandu e o aeroporto mais proximo da fronteira + 20 minutos de taxi entre o aeroporto e a fronteira + 2h30 entre a fronteira e Darjeeling = pouco menos de meio dia de viagem
Contagem magico-alquimico-transcedental do tempo:
45 minutos de voo entre Khatmandu e o aeroporto mais proximo da fronteira + atraso na decolagem do voo por causa do mau tempo + 2 horas em um reikshaw no lugar do taxi por conta da greve desencadeada pelos maoistas do Nepal + pernoite em um hotel vagabundo na fronteira depois de chegarmos tarde demais para pegarmos a estrada para Darjeeling + 2h30 entre a fronteira e Darjeeling + 45 minutos de espera ateh o taxi coletivo lotar de passageiros ateh (literalmente) a borda + espera de duas horas depois da quebra da caixa de cambio do mesmo carro + carona em carro de moradores locais depois de suplica no meio da estrada= um dia e meio de viagem
Ainda fico boa nisso.


Sexta-feira, Janeiro 23, 2004


O amor eh cego
Do ponto de vista ocidental, o Nepal eh uma India melhorada em muitos sentidos. Mais bonito, mais limpo, mais tranquilo, menos perigoso, menos buzinas no transito. Em Tamel, onde estamos hospedados, tem bolo de chocolate, cheesecake de limao, papel higienico nos banheiros e -- requinte absoluto -- sabonete liquido nas pias dos restaurantes. Alguem pode me explicar, entao, por que eh que eu ainda prefiro a India???
Embarco amanha para Darjeeling.

Agora, eu e eu
Depois de um mes viajando juntos, chegou a hora de cada um seguir seus desejos. Otavio partiu hoje para o sul da India atras das praias paradisiacas e da comida fantastica que povoavam a sua imaginaccao desde muito antes de chegarmos. Cindy foi para Goa, onde certamente vai encontrar a badalaccao que procura. Resolvi ficar mais um dia para ver Bharaktapur e saio amanha para Darjeeling, num dos topos do mundo. Dani, invejado por todos, fica em Khatmandu mais alguns dias, jah que volta mais tarde para o Brasil.

Maquina do tempo
Visitei Bharaktapur embaixo de uma chuva insistente. Tirando as poucas motocicletas pelas ruas e o bonecos do homem aranha na porta de uma loja, foi como voltar cinco seculos. Ruas estreitas, chao sem asfalto, templos trabalhadissimos, artesaos produzindo, fresquinhas, as lembranccas para levar para casa. Deuses severos, perversos, implacaveis, sensuais, ateh excitados. Valeu todos os comprimidos de benegripe que vou ter que tomar nos proximos dias.

Quinta-feira, Janeiro 22, 2004


Ei! Ainda estamos em Khatmandu! Muita coisa pra fazer. Acordamos cedo, fomos a Patan, uma cidade vizinha, e tivemos um otimo dia. Mas hoje estou com preguicca, tah? Escrevo depois. Beijo!

Terça-feira, Janeiro 20, 2004


Novos amigos
Entre os encontros e despedidas tao rapidos, fica sempre o um gostinho de quero mais. Que bom terem entrado na minha vida...
A alema Sabina, que vai carregar para a eternidade a culpa por nos ter viciado em snickers, o melhor chocolate do mundo depois de Twix, Kit-Kat e Tobelrone. Foi nossa companhia na descida de mais de mil metros a pe no ultimo dia de trekking no Nepal.
O espanhol Jesus, filho de Maria e Jose, ateu, que me ensinou -- passo a passo -- o processo burocratico necessario para se tornar uma apostata. Suportou conosco, cheio de humor e coragem, as longas 24 horas de viagem entre Agra e Varanasi, por onde perambulamos em extase.
O brasileiro Carlos, monge budista que conhecemos assim que pusemos o peh no Nepal. Graccas a ele, alteramos o primeiro dia de roteiro no pais para visitarmos Lumbini -- o lugar onde Buda teria nascido -- e participamos, emocionados, de uma cerimonia com quase tres mil monges.
Viva la vida e as felizes coincidencias!

Segunda-feira, Janeiro 19, 2004


Shopping descontrol
Pokhara eh uma especie de Meca para viajantes interessados em renovar o guarda-roupa de aventura sem gastar uma fortuna. Nas lojas que se alinham aa beira do lago da cidade, eh possivel encontrar todo tipo de equipamentos para trekking, alpinismo e neve a preccos ridiculos. Tudo falsificado, claro. Marcas famosas estampadas em jaquetas, calccas e adereccos made in Taiwan, Coreia e Katmandu. Qualidade... razoavel. No dia anterior a nossa ida para o Himalaia, fizemos a festa. Compramos de tudo. Valeu a pena, jah que nao teriamos aguentado o frio das montanhas sem equipamentos apropriados. Mas todas as vezes em que penso na volta para casa, me dou conta de que talvez tenha exagerado. Quero ver o que vou fazer no verao brasileiro com tres gorros de lã de yak.

Himalaia
Um curto voo entre as montanhas mais altas do mundo e estamos no Himalaia.
Cinco dias de trekking na regiao de Annapurna nos fizeram entender porque o inverno eh considerado baixa estaccao por aqui. O frio eh congelante! O percurso eh sofrido, as muitas horas de caminhada montanha acima e abaixo extenuam, nao ha luz, telefone, carro nem banho quente. Ha estrutura para dormir, desde que se traga um saco de dormir (que parece pesar mais a cada dia). Nada facil. Eh testar seus limites a cada passo. Mesmo assim, vale a pena. Picos nevados, rios de agua verde esmeralda, cachoeiras e passagens por vilas perdidas nas montanhas. Nao dah para evitar o trocadilho infame: eh de tirar o folego.

Nepal(sa)
Uma pausa na loucura. A India que me perdoe, mas um pouco de calma eh fundamental. Depois da viagem interminavel em uma versao light de um `chicken bus`, chegamos ao Nepal.

No meio do caminho tinha... tanta coisa
A India pede cuidado com a agua, com a comida, com os ladroes, com a saude... mas o cuidado mais imediato eh com os passos na rua. Caminhar em espacco publico requer atenccao redobrada. Bosta de vaca, camelo, elefante, macaco, gente e outros bichos nao identificados. Consistencias, tamanhos, texturas diferentes. Acho que nunca mais vou passear pelas calccadas de Higienopolis com o mesmo cuidado. Depois de tanto trabalho para nao pisar (ou tropeccar) em tanta coisa, o que eh encontrar um cocozinho de cachorro na sola do sapato, afinal????

Pra nao dizer que nao falei das flores
Acho que visitamos o Taj Mahal no dia mais nublado do ano. A neblina era densa, quase cegava. Mesmo assim, foi surpreendente. Por mais fotos que tenha visto, por mais historias que tenha ouvido, jamais teria imaginado os detalhes. As flores, para ser mais exata. Petalas, folhas e caules desenhados em pedras semipreciosas. Cores vibrantes no branco absoluto. Um elogio aa beleza e uma homenagem aa delicadeza. Que lindo.

As flores do Taj


Domingo, Janeiro 18, 2004


`Hello Money!`
Outro dia, criamos um jogo para passar o tempo. Chamamos de `Hello Money!`. Um `Hello` vem imediatamente acompanhado de outra palavrinha que, geralmente, eh um pedido ou uma oferta (em troca de dinheiro, claro). A entonaccao eh assim, sem virgula, como se alguem estivesse chamando o outro pelo nome. Como se ao inves de dizerem `Oi Fabiana`, falassem `Oi Dinheiro`. A ideia era usar o maximo de palavras que jah haviamos ouvido por aqui. Entre as muitas combinaccoes, lembramos de Hello Money!, Hello School Pen!, Hello Euro (!)!, Hello Dollar!, Hello Shampoo!, Hello Boat!, Hello Sweet! Hello Toilet Paper! e dezenas de outras. Todos os dias acrescentamos mais registros a nossa coleccao. De certa forma, isso traduz um pouco a sensaccao que nos acompanha desde que chegamos. Em meio a tanta pobreza, eh dificil nao se sentir um saco de dinheiro ambulante.


River Raid
Quem diria que o Atari que ganhei da minha avo quando era criancca fosse me ajudar a atravessar as ruas indianas! Nao fosse ter jogado muito River Raid, talvez ainda estivesse caminhando de um lado soh da calccada por todo o pais. Cruzar os poucos metros que separam o 'aqui' do 'lah' eh uma aventura. De todos os lados, carros, tuctucs, ricksaws, bicicletas, carroccas, vacas e o que mais aparecer. Tudo ao mesmo tempo, na mao (inglesa) e contramao. No inicio, levava interminaveis minutos tentando encontrar uma brecha ateh me aventurar. Agora, como no River Raid, comecco a desenvolver taticas. A melhor eh se jogar, ignorar os veiculos mais leves (eles desviam de voce!) e seguir na diagonal ateh o outro lado. Ateh o final da viagem, tenho certeza de que facco isso de olhos fechados. Haja capacidade de adaptaccao!

Sexta-feira, Janeiro 09, 2004


Varanasi
Sem palavras ainda. Ou poucas. Vi o Ganges, finalmente. Vi homens e mulheres se banhando em ritual. Vi tecidos maravilhosos, bordados, seda, expostos em ruas imundas.
Vi corpos sendo queimados em fogueiras a ceu aberto. Seres humanos. Braccos, pernas, despontando entre as chamas. Vi vacas, bufalos e cachorros revirando lixo ao lado das piras. Crianccas aproveitando o ar quente das fogueiras para dar impulso aas pipas que salpicam ceu. Nao dah para falar mais. Os proximos dias vao ser fortes.

Oasis
O barulho eh constante, nao importa onde. Buzinas, motores, vozes e, aa noite, o inconfundivel arrulhar das pombas nos parapeitos dos hoteis baratos. Mas ha os parques. Oasis em meio ao caos. Quase desertos, silenciosos. Ignorados pela populaccao local. Descobrimos um em Agra, logo apos a nossa aventura cinematografica (vejam o relato abaixo!). Um calmo e bonito caminho ligando o forte da cidade ao Taj Mahal. Fizemos o percurso quase nao acreditando na repentina paz. Jah estavamos desacostumados a caminhar sem o insistente convite dos motoristas de tuctuc e ricksaw para uma carona a qualquer ponto em troca de poucas rupias. Mais uma descoberta preciosa. Quantas surpresas, India!

Tarde no cinema
Tivemos que ficar um dia a mais em Agra para pegarmos o trem para Varanasi. Jah tinhamos visto o Taj Mahal (lindo, lindo, lindo -- mais lindo que em qualquer foto que jah tinha visto), o forte da cidade, o mercado.... fazer mais o que? Fomos ao cinema. Jah queriamos prestigiar a produccao cinematografica local ha muito tempo e era a oportunidade perfeita. Foi uma experiencia e tanto. Clipes estilizados, atuaccoes canastronas, dialogos meio em hindi, meio em ingles e uma estetica absolutamente kitsh. Saimos duas horas e meia depois, com o filme ainda em andamento. Embora dois terccos do elenco jah tivesse morrido (e que mortes!), o enredo ainda prometia muita emoccao.
Na tela, nem um beijo. Enquanto isso, Daniel pegava um onibus para Khajuharo, alguns quilometros ao sul, onde um conjunto de templos hindus expoem ha quase um milenio, sem pudor nem cerimonia, todas as posiccoes sexuais imaginaveis.
Ah, a India e seus constrastes!

Quase indiana
Comprei dois saris lindos, um verde e outro vermelho, que aprendi a usar. O vendedor me ensinos a enrolar tudo aquilo no corpo ateh que seis metros de tecido se transformassem em um vestido maravilhoso. Tambem fiz tatuagem de hena, andei de tuctuc, ricksaw, camelo e elefante, dormi no deserto e me acostumei a tanta pimenta. Jah sou quase uma indiana! Soh preciso agora de umas cinco reencarnaccoes para desenvolver todos os anticorpos necessarios para escovar os dentes sem precisar de agua mineral.

Minha tatoo


Balde e canequinha
Os muitos rolos de papel higienico que trouxemos na viagem tem sido extremamente uteis. Eh artigo de luxo por aqui. A populaccao local nao entende como os turistas preferem pagar 40 rupias por um rolo quando agua eh muito mais eficiente na limpeza intima. Embora o raciocinio faccao todo o sentido, eh duro se adaptar. Nos banheiros, o que se encontra eh a dupla balde e canequinha ao lado de uma torneira. Como nao vem com instruccoes de uso, resta a nos usamos a criatividade para imaginar como o processo funciona. Jah encontramos muitos usos alternativos para os apetrechos. A canequinha, por exemplo, eh muito util para resolver o problema recorrende de descargas quebradas. Jah o balde, tem auxiliado a lavagem de roupas. Daih para partirmos para o uso classico da dupla, ainda vamos precisar de muita coragem.


Balde e canequinha: dupla dinâmica


Dieta do Urso Polar
Durante semanas antes de embarcarmos para a India, eu e Cindy nos convencemos de que, jah que iriamos passar fome na viagem, podiamos comer qualquer coisa antes. A logica nos pareceu similar aa rotina dos ursos, que comem exageradamente para hibernarem depois. O `problema` ateh agora eh que nao chegamos perto do equivalente a fase de hibernaccao. A comida eh excelente e, tomados os cuidados basicos na escolha dos restaurantes, nada perigosa. Tambem nao sinto falta de carne e a pimenta jah nao eh problema. Acostumamos. Eh surpreendente como uma couve-flor pode ser saborosa! Com tantos temperos, ser vegetariana por aqui nao eh sacrificio algum.

Gente que estranha gente
Nos os observamos, eles nos observam. Um sentimento de curiosidade em duas maos. Eh dificil tirar fotos das pessoas sem a sensaccao de estar invadindo o espacco alheio. Mas como segurar o dedo no disparador da maquina diante de tanta diferencca? Relaxei um pouco hoje quando, distraida, fui cutucada por um indiano que pedia, muito educado, que nos colocassemos mais juntos para a foto que ELE queria tirar dos estrangeiros. De repente, tambem me vi fazendo parte da paisagem. Arrumei o casaco, coloquei o melhor sorriso na cara e... Xis! Lah estava eu no pedacinho de papel que ele levou de lembrancca para casa.

Quinta-feira, Janeiro 08, 2004


Pushkar
Pushkar, onde passamos o Ano Novo, eh uma cidade sagrada aa beira de um lago sagrado com um monte de vacas sagradas pelas ruas e macacos sagrados pulando pelos templos. Nas pequenas vielas, o assedio eh grande. Gente querendo vender de tudo. Mulheres nao podem andar com braccos e pernas descobertos. Nao se come ovo nem se bebe nada alcoolico. Mas praticamente todos os restaurantes oferecem no menu lassis (bebida local aa base de iogurte) na versao `special`, o que significa enriquecidos com bang, uma especie de maconha `sagrada` para os bramanes. Agora comecco a entender por que tanta gente tem esperiencias misticas por aqui.

Segunda-feira, Janeiro 05, 2004


Medo
A India eh um pais sem medo. Sem medo de doencca, de acidente na estrada, de tombo de arvore, de fome, de ladrao, de sujeira. Sem medo da morte. Chega quase a uma displicencia com a vida. Dificil de entender para os nossos olhos. E eu, tanto para aprender, tao pouco tempo!

Os ratos e o sagrado
Bikaner, Rajastao. Um templo erguido para adoraccao de mais um animal sagrado. O rato. Dentro, ratos. Milhares. E a obrigaccao de tirar os sapatos. O periodo que abrange a chegada ao lugar, a decisao de entrar e enfrentar o desafio e a visita em si eh sublime. Provoca todos os seus instintos e medos. Sem saber bem como, me vi tirando os sapatos para entrar em um lugar infestado de o que achava mais nojento. Por curiosidade. Corri o risco de ser mordida ou ter meus pes atropelados sem pensar nas consequencias. Por curiosidade. Ateh agora, nao entendia bem o que fazia os indus adorarem animais. Se eh que na India todo mundo passa por um periodo de iluminaccao, acho que aih comecei o meu.
Afinal, o que faz da minha curiosidade algo melhor, mais justificado ou civilizado do que a feh dessa gente se, no meio da tarde, estavamos todos lah, descalccos, venerando um punhado de ratos? Eles, rezando. Eu, tirando dezenas de fotos.


Ratos sagrados: Agh!

A Cindy tirou esta. Olha a tranquilidade do cara ao lado do rato!


O cheiro
Temperos, urina, pao, suor... o cheiro eh forte nas ruas e nas casas. Eh dificil nao notar os banheiros publicos, latrinas a ceu aberto nas calccadas onde os homens aliviam as bexigas.

Monet no deserto
Olhando assim de repente, ateh parece uma pintura. Os saris coloridos das mulheres sao pinceladas de cor no deserto. Cores fortes, contrastantes com a terra e o clima. Gotinhas de alegria no meio do nada.

Sábado, Janeiro 03, 2004


A estrada II
A medida em que avanccaomos para o oeste, a vegetaccao vai rareando e o ar fica mais seco. Mas a vida continua exuberante. Intensa em todas as cidades. O comercio de rua eh impressionante. Vende-se de tudo, troca-se de tudo nas pequenas barracas ao londo das ruas. Aa noite, a iluminaccao amarelada dah um ar romantico aas cores ainda fortes dos temperos, saris, pulseiras, panos estendidos para atrair os clientes.

A morte, a limpeza, o tempo, o proximo
Quando eh que vou conseguir entender a relaccao com tudo isso por aqui????

A estrada
Segundo dia no carro. Comeccamos a entrar no Rajastao. A viagem tem sido muito mais confortavel do que imaginavamos. O carro tem ajudado muito. Impossivel nao pensar no trabalho que estariamos tendo sem ele. As estradas sao boas, mas dirigir eh uma aventura. Ultrapassagens suicidas, bichos na rua (e que bichos!), gente sem pressa e sem medo.

Semelhanccas
Aqui e ali, as semelhanccas aparecem. Nas cores, na preocupaccao com os detalhes, no menino vendendo pe-de-moleque no transito (!)

`Please, horn`
A lei da buzina impera no transito. Nos carros, nos caminhoes, eh comum ver o pedido `Please, horn` escrito na traseira. Na primeira vez em que vimos, achamos que era piada.

Buzine!


A India e os sentidos
O camelo puxando a carrocca, os costureiros no meio da rua, o barbeiro no meio do nada, os homens urinando na calccada, os rostos das crianccas, que aprenderam tao cedo a trocar sorrisos por rupias.... Nao dah para descrever, nao dah para fotografar tudo o que acontece. Tao frustrante. Hoje, me peguei suplicando `Por favor, nao esquecca! Por favor, nao esquecca!`. Esperancca boba de fazer com que todas as imagens, todos os cheiros, todas as sensaccoes caibam no minusculo espacco de uma cabecca. Afliccao previa de quem sabe que nao vai ser capaz de guardar tudo em si.

O camelo, o costureiro, o barbeiro e as crianças


Delhi
Quando cheguei, a unica coisa em que pensava era sair. Quando saih, dois dias depois, soh conseguia pensar em ficar mais. A desordem fascina, hipnotiza. Em pouco tempo, nao eh que jah dah para ver ordem no caos?!



Delhi pela janela do hotel...

... e na rua


Quinta-feira, Janeiro 01, 2004


Noticias intermitentes da India






Eu e os meninos no nosso primeiro tuctuc

Delhi
Depois de 37 horas de viagem, chegamos! Delhi eh suja, barulhenta e terrivelmente desorganizada. Dificil imaginar como se vive em um caos como este. Mesmo assim, estou adorando. Encontramos o Daniel em um hotelzinho horroroso no centro da cidade e mudamos de lah na mesma hora porque achamos que mereciamos alguma coisa melhor depois de tanto sofrimento para chegar aqui. Foi a melhor coisa a fazer. Eh mais caro que a media (uns 20 reais por dia), mas tem uma agencia de viagens super eficiente que facilitou a nossa vida no primeiro dia. Foi muito legal ver as atraccoes da cidade com um carro a nossa disposiccao. Contratamos este mesmo carro (com motorista) para nos levar as cidades que visitaremos nos proximos 10 dias. Eh claro que pesquisamos antes de tomarmos esta decisao, e uma visitinha aa estaccao ferroviaria daqui foi decisiva para nos convencer de que um pouco de estrutura por esses lados nao eh luxo algum. Viajar com os meninos e a Cindy estah sendo super divertido ateh agora e, certamente, eh um apoio e tanto. Juro, nunca vi nada igual a este lugar. Acho que ainda vou levar alguns dias para me acostumar e entender tudo o que tem passado pelos meus olhos. A miseria eh esmagadora, a quantidade de gente, atordoante. Ha uma logica que foge a tudo o que chamamos de racional. Mesmo assim, essa mistura eh extremamente fascinante.
O Natal passou como uma noite qualquer. Nao fossem alguns enfeites timidos aqui e ali, ninguem lembraria da data. Jantamos bem e fomos dormir antes das 10h de tao cansados. No dia seguinte, muita gente na rua e a vida correndo como em qualquer outra data.

Ah! Soh pelo aeroporto de Johannesburg, dah muita vontade de conhecer melhor a Africa. Tem tudo para ser a proxima viagem. Tah, eu sei que esta nao eh bem uma notiia da India.... So falei porque, durante as 37 horas de viagem, passamos por lah.

"Muerto no es el que en paz descansa en la tumba fría. Muerto es el que tiene muerta el alma y vive todavía"
Frida Kahlo

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